Cabeças e Cadeiras
O próprio processo de ensinar e aprender me fascina desde que me entendo por gente. Naturalmente, a primeira grande professora que tive foi minha mãe, calculadamente deixando livros interessantes e coloridos ao alcance dos meus olhos vorazes, ainda quando eu era pequeno. Parecia-me profundamente mágico que se pudesse entender mais de um diálogo lendo-o do que o ouvindo. Por certo, como ainda era muito pequeno, não conseguia formular frases que demonstrassem a contento todo o meu fascínio, mas minha esperta mãe sabia ler meus sinais infantis e estimulava de diversas formas meu contato com todo o tipo de cultura, desde oferecendo um belo volume de “Os Três Mosqueteiros” até colocando na vitrola o hipnótico “Pendulum”, álbum da banda Creedence Clearwater Revival. Também foi com minha mãe que tomei meu primeiro contato com os poemas e a beleza das rimas refinadas, ouvindo os versos que ela mesma criava em homenagem ao nascimento de cada um dos seus três filhos.
Quando moleque, os livros já me eram apaixonantes, mas as revistas em quadrinhos conseguiam ser ainda mais sedutoras, com seus heróis voadores correndo pelas páginas, gritando frases de efeito que me pareciam permeadas de uma sabedoria quase mística, salvando o mundo constantemente, cheios de nobreza e caráter. Em minha mente, saltava entre os prédios com os heróis de minha infância, torcia por suas inevitáveis vitórias perante os criminosos mais covardes, namorava-me das belas mocinhas que corriam perigo a cada edição. E, acompanhando constantemente aquele mundo arquetípico, ia aprendendo coisas impressionantes sobre mitologia grega (inesquecíveis aventuras da Mulher-Maravilha, apresentando todo o panteão olímpico), sobre a coragem e a dignidade humana (como nas aventuras do meu herói predileto, o Lanterna Verde, a força de vontade guiando-o pelo cosmo, policiando o universo), sobre as perdas e os erros humanos, sobre redenção (como nas aventuras de heróis urbanos como Homem-Aranha e Demolidor), sobre preconceito e superação (como nas profundas relações sociais pinceladas na jornada dos X-Men).
Depois, ao terminar o segundo grau, tendo feito alguns anos de magistério, decidi dar uma pausa nos meus estudos e começar a trabalhar como “gente grande”. Foi aí que encontrei mais uma série de ótimos “professores”, fossem eles momentos, histórias ou garotos, durante todo o tempo que trabalhei na FEBEM. Com pouco mais de dezoito anos, tinha nas veias a mesma vontade e ideais dos meus velhos heróis dos quadrinhos, mas não carregava o mesmo volume de poder sobre-humano. Para as situações que presenciei, era preciso uma análise mais densa, tamanha a complexidade de cada caso, de cada adolescente. E aí aprendi a avaliar melhor o mundo, compreender que existem inúmeras saídas, interpretações, experimentações.
Tudo, se bem aproveitado, pode ensinar algo muito relevante ao indivíduo. Mas se formos ignorar os professores incidentais, casuais, e formos nos concentrar nas pessoas que decidiram abraçar o ensino como vocação (além de como profissão), certamente seria mais fácil identificar quem foi a figura que deixou uma marca indelével nos meus anos de estudo. Aquele professor de filosofia.
Até então, não tínhamos aulas de filosofia. Estudava no turno da noite, em um colégio público, relativamente contaminado pelo desinteresse de alguns e cansaço de outros. E então, em nossa primeira aula de filosofia, o professor entrou (seu nome era Edgar), sorriu-nos francamente, deu boa noite e pegou sua cadeira, com as duas mãos. Quando percebeu que a sala estava quase toda observando seus gestos, simplesmente colocou a cadeira sobre sua mesa e nos disse, categoricamente, que escrevêssemos sobre o que estávamos vendo ali. Dito isso, saiu sorridente da sala.
Não é preciso ser muito criativo para imaginar a surpresa que se apossou da sala nos quinze minutos seguintes. Que estranheza era aquela? Foi um alvoroço, uma comoção. Não estávamos acostumados a ter nossa imaginação tão desafiada, esperávamos o velho padrão de comportamento professor-aluno, o modorrento caminhar pela noite até o bendito sinal tocar. E ali estava uma cadeira sobre uma mesa, em uma sala sem um professor.
Quando nosso guia retornou, já havíamos criado inúmeras possibilidades de interpretação, a maioria ainda viciada nos velhos moldes de análise que a escola mais engessada pode gerar. Afinal, não era uma simples cadeira? Naturalmente, não era. De forma simples, controlada e emocionante, o jovem professor de filosofia nos levou ao mundo das idéias, ao modelo de cadeira ideal, ao trabalho humano necessário para transpor as divisas entre a imaginação e o mundo real, a imperfeição da matéria. Como no Mito da Caverna, fomos aprendendo a observar as figuras com consciência de suas dimensões, acostumando-nos aos poucos a toda aquela claridade, toda aquela possibilidade de reinventar, remodelar e reinterpretar o mundo, o conhecimento em si.
Durante todo o ano, éramos forçados a caminhar com o professor dentro da filosofia humana, esbarrando em inúmeras idéias perturbadoras e apaixonantes, somente para perceber que as raízes de tudo aquilo já estavam plantadas em nossas mentes há muito tempo. Apenas não havíamos nos dado conta. O professor de filosofia não estava ensinando apenas o método e a história da filosofia: ele estava nos dando ferramentas para que pudéssemos ditar as novas regras do nosso próprio pensamento, da nossa própria interação com o mundo.
O professor de filosofia ficou como um registro, um lembrete eterno, um divisor de águas no meu comportamento. Não que eu desejasse emular sua energia, seus métodos: ele simplesmente havia demonstrado que eu poderia criar meu próprio estilo. E que era exatamente o respeito ao ritmo, estilo e interpretação de cada um o que poderia vir a me tornar um instrumento de ensino tão valioso e poderoso aos outros quanto ele foi para mim.
Meu amor pelo processo de aprendizagem só fez crescer, esses anos todos. Pude aprender muito mais, com cada passagem de minha vida, simplesmente porque tive a sorte de contar com alguém que me mostrou, muito claramente, o quanto há um professor e um aluno em cada pessoa, em cada situação, em cada etapa. E, sendo assim, também acredito que já pude ensinar um bocado. É um processo dinâmico e que não se encerra em si mesmo. Eis aí algo que não é mágico (é bastante científico, aliás), mas contém todo aquele encanto maravilhoso que me fascinava nos primeiros livros pela casa, as portas para um mundo maior do que eu, mas que sempre caberá dentro de mim.
Posted by fight_club at 03:57 AM | Comente